"Encontrei esse jornal no Centro de Integração Empresa-Escola-CIEE."
Desenho à mão livre, mas livre mesmo!
O Professor e seu aluno.
“... A história ocorreu logo que comecei a atuar na escola de Madureira. Durante um dia de aula, um dos meus meninos apareceu na sala com um livro estrangeiro cujo conteúdo afirmava ensinar a arte do desenho... mas, ao folhear o livro, observei especialmente um capítulo no qual o autor explica a importância de "segurar o lápis da forma correta” .Em duas páginas ricamente ilustradas, o "mestre" chegava a ressaltar a acuidade que o desenhista deveria ter ao manipula seus lápis, afirmando inclusive, que este deveria ficar posicionado de forma que a mão se fixasse no meio do lápis para que houvesse equilíbrio no manuseio da peça. Com certa dose de detalhes o autor do livro "ensinava" que o aprendiz de desenhista não deveria, em hipótese alguma, segurar seu lápis muito próximo do grafite e chegava às raias do exagero ao afirmar que dessa forma o principiante evitaria traços agressivos, entre outras bobagens. As ilustrações eram de boa qualidade e traziam pequenas setas direcionando as informações existentes nas legendas. De fato, eram bem- feitinhas, mas as dicas não passavam de um festival de baboseira típicas de quem quer encher linguiça num texto.
Quando terminei de folhear o livro, como se tivesse acabado de me mostrar um baú de tesouros , o aluno quis saber minha opinião sobre as paginas que eu acabara de ver. Fui franco com o jovem e quase disse que ele deveria fazer o mesmo que os alunos do professor John Keating fizeram. Para quem não se lembra, Keatin é o personagem principal do filme Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), dirigido por Peter War e estrelado magistralmente por Robin Williams. Numa cena, durante a aula de inglês. John Keating mostra uma lição de um livro de literatura com ensinamentos sobre poesia, cujo autor mostrava que a avaliação de um bom poema poderia ser feita como a análise de um gráfico matemático. Considerando que a lição não passava de excremento (o personagem diz mesmo excrement ) , Keating aconselha seus alunos a arrancarem a página do livro, transformá-la em bolinha de papel e arremessá-la na cesta de lixo que ele mesmo faz questão de trazer. O que se vê a seguir é uma algazarra de jovens, como se disputassem quem se livrará mais rapidamente da página condenada.
O personagem vivido por Robin Williams representa o novo, a modernidade, a liberdade de escolha de um artista e não titubeou ao mostrar que as doutrinas impostas pelo autor do livro didático (um fictício Sr. J. Evans Pritchard) não permitiam o livre pensamento. "Agora, classe, vocês aprenderão a pensar sozinhos de novo", diz Keating ao encerrar sua cena. No filme, a escola representa o que de mais conservador existia na América nos idos de 1959.
Acredito que qualquer pessoa que já deu aula alguma vez na vida adora esse tipo de filme. Por mais inverossímil que seja a cena é divertida e faz nossa língua coçar cada vez que esbarramos em livros cheios de dicas inúteis.
Obviamente que eu não cheguei a aconselhar meu aluno a mutilar seu livro, mas afirmei que arte é subjetiva em todos os sentidos e que até na forma de desenhar o artista deve descobrir quais são os melhores métodos, ângulos e posições para si. “Cada um é cada um. Não caia em regrinhas como se elas fossem às únicas verdades”, eu disse ao menino. Mas o guri, na teimosia típica da idade, discordou veementemente e afirmou que, se estava no livro, é porque tinha motivo de ser. A aula daquele dia já estava chegando ao final, então eu sugeri que ele não esquentasse a cabeça com as minhas opiniões, mas que na próxima aula eu mostraria uns desenhos bacanas para nós discutirmos melhor o assunto.
Dois dias depois, logo no início da aula, chamei o jovem até minha mesa e mostrei a ele uma coleção de lâminas impressas, ilustradas com dezenas de desenhos e pinturas executadas em estilos dos mais diversos. Mostrava uma peça e perguntava: "o que acha? É bonita?" o menino ia olhando uma a uma sem deixar de comentar que eram lindas. "Poxa, será que um dia vou conseguir desenhar bonito assim?", perguntou enquanto eu ia exibindo as pranchas. "Aí, depende", respondi. Dei uma pausa na mostra dos impressos e perguntei ao jovem: "Acredita que para chegar a essa maturidade você vai precisar mesmo seguir à risca a lição de ‘como pegar corretamente no lápis? ’ “Eu ainda acho que sim”, respondeu o aluno já com alguma irritação. Então, eu disse: “Olha, faz o seguinte, leva estas imagens pra sua mesa. Aliás, leve-as para casa. São suas a partir de agora, mas não se atenha somente aos desenhos. Veja no verso de cada folha as informações sobre o artista autor da obra. Tá legal?”Ele agradeceu e foi para sua mesa. Eu continuei minha aula, mas sem deixar de observar sua reação cada vez que ele olhava o que estava no verso de cada desenho. Na verdade, eu havia trazido uma série de cartões que eram vendidos para arre¬cadar fundos para portadores de necessidades especiais. Não lembro que organização era, mas tratava-se de uma dessas que orientam artistas que nasceram sem as mãos ou braços ou com malformação desses membros. As obras feitas por esses artistas são maravilhosas e é impossível imaginar que poderiam ser criadas por alguém que não tem os braços, numa incrível demonstração de superação. Além da pequena biografia do autor do desenho ou pintura, todas vinham acompanhadas por uma fotografia do artista em ação. Uns apareciam segurando seus pincéis ou lápis com a boca, enquanto outros demonstravam suas habilidades com os pés.
Percebi que o jovem ficou meio sem graça, talvez até um pouco chocado. “Mas, assim que terminou a aula, ele se aproximou para o habitual “até a próxima aula” e me disse que havia entendido os motivos das minhas opiniões e que iria estudar e se informar mais sobre o que é ser artista.”
Lembrei do fato acima quando visitei em Março a bela Exposição de Arte Muito Especial - Diversidade, do Instituto Muito Especial. A exposição foi montada no Centro Cultural Justiça Federal, entre os dias 3 de Março e 21 de Abril, e a competente curadoria ficou a cargo do meu amigo Jorge de Salles.
Durante a inauguração da exposição pude ver de perto dezenas de obras criadas por pessoas que, sem os devidos incentivos, continuariam dentro das suas casas como se fossem meros coadjuvantes de uma sociedade cheia de preconceitos.
O trabalho desenvolvido pelo Instituto Muito Especial mostra que as artes podem realmente agregar seres humanos, independentemente das suas diferenças, e elevar os portadores de necessidades especiais à condição real de artistas. Totalizando 27 participantes, entre deficientes físicos, visuais, audi¬tivos e intelectuais, a exposição mostrou qualidade e provou que eventos semelhantes podem se repetir em outros espaços nobres do chamado Corredor Cultural do Rio de Janeiro ou, ainda - se não for pedir muito -, que artistas com características semelhantes sejam aproveitados em mostras de artes que não apresentem especificamente as obras de pessoas com algum tipo de deficiência, mas de artistas, não caracterizados por sua condição física ou intelectual .
Para saber mais sobre o Instituto Muito Especial e, conforme disse meu ex-aluno, entender mesmo o que é ser um artista de primeira grandeza, o leitor pode visitar o site no endereço.
http://www.muitoespecial.com.br/
Uma história e tanto, todos somos capazes e vamos ver a vida com mais leveza, a arte está em cada pessoa de alguma forma.
Amei essa história tanto que não contive a minha euforia ao ler, enviei um email para o autor do texto
Zé Roberto, que escreve para o Jornal das Letras há sete anos, no mesmo dia, ele me respondeu permitindo a publicação neste blog fico muito grata.
Conheça mais o
Zé Roberto Grauna
Artefato Cultural